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15 de outubro de 2010

Problemas complexos requerem soluções abrangentes.

Estamos assistindo nestes dias, por causa do segundo turno das eleições para a presidência da República, um debate superficial sobre o tema do aborto. Interesses políticos, econômicos, religiosos se misturam no confronto. Na verdade, nem de debate se trata, mas de uma campanha desleal e difamante que usa o tema do aborto como bandeira, para atingir o coração principalmente dos/as católicos/as, em busca dos seus votos (continua...).
Não quero entrar em detalhes legais, médicos ou éticos para justificar ou defender o aborto, nem o contrário. Quero oferecer alguns questionamentos sobre a manipulação que se faz deste tema, desta realidade dramática. 
Não resulta curioso que sejam os setores mais conservadores da sociedade e da Igreja (que nunca se preocuparam com a maioria pobre do país e do mundo) os que mais rejeitam a mudança na lei sobre o aborto?
Por que não se investem os esforços, energias e recursos que se dedicam a lutar contra o aborto (defendendo a vida dos não nascidos) para defender, proteger e garantir também a vida digna dos já nascidos, abortado em vida, de milhões de seres humanos condenados a sobreviver como animais? Está claro, é muito mais fácil defender a vida daqueles que não dependerão de mim. A final de contas, a criança por nascer será responsabilidade única da mãe... que se vire! Mas esses milhões de empobrecidos/as, seu futuro e sua dignidade dependem fundamentalmente da distribuição justa das riquezas, do uso racional e solidário dos recursos... sua vida, por tanto, depende de mim! Aí não... É fácil defender a vida que não questiona, nem mexe, nem condiciona minha forma de viver. É fácil defender a vida, quando esta nada tem a ver comigo.
A lei vigente já não responde às necessidades e condições da realidade atual. Mudar a lei e elaborar uma nova significa iniciar um debate nacional que, como toda troca de ideias, pode ser muito enriquecedor para a sociedade toda. Quem tem medo de pensar? Quem prega em homilias e palestras que não devemos pensar, senão aceitar cegamente o que “mestres e doutores” falam para nós? Quem rejeita uma teologia dialogante, aberta e criativa, propondo como teologia única a transmissão de verdades, sem discussão nem questionamentos?
Sabemos que as causas e consequências do aborto não são superficiais. Como sacerdote, tenho recebido e acompanhado a não poucas mulheres grávidas que queriam praticar um aborto, e outras que já  tinham praticado. O que essas mulheres vivem é dramático. Somente colocando-nos no seu lugar poderemos começar a imaginar o que sentem, seus sofrimentos e a dor causada pela experiência de morte que vivem. Banalizamos o aborto quando esquecemos a mulher e olhamos somente os dogmas, tópicos gerais que não expressam nada, mas que enchem a boca de quem os proclama. Em todas as situações de possível aborto existem, pelo menos, duas vidas que devem ser escutadas, atendidas, amadas e protegidas.
O aborto é, nestes momentos, um dos problemas mais complexos que existem na nossa sociedade. São inúmeras as variantes, condições, necessidades, carências, limitações e possibilidades que existem e que fazem que, cada caso, seja único. Um problema tão complexo não pode ter uma solução simples: “sim ao aborto em todos os casos” ou “não ao aborto em todos os casos”. Hoje precisamos de leis abrangentes, que contemplem o maior número possível de variantes, que respondam a todas as situações possíveis. Quando nos envolvemos em problemas complexos, percebemos rapidamente que as soluções não são simples nem automáticas. Na problemática do aborto se combinam múltiplas variáveis, de tipo legal, médico, ético, cultural, religioso, econômico... Um problema tão complexo não pode ser resolvido com um simples sim ou não.
Como acabo de expressar e denunciar, até um posicionamento radicalmente contrário ao aborto, por motivos religiosos e éticos, pode estar condicionado por interesses econômicos e políticos de classe. Defendemos a vida desde a sua concepção até o momento final... mas só de uns poucos, daqueles que não complicarão minha vida, meu nível econômico, meus privilégios e tranquilidade. Muitos deles nascerão, porque nós defendemos sua vida, para serem condenados a sobreviver como abortos em vida. Ah, mas esse problema já não é mais comigo, esse é um outro departamento.

24 de setembro de 2010

Projeto Social do Colégio São Miguel Arcanjo

Quero partilhar aqui esta apresentação do Projeto Social colégio São Miguel Arcanjo, aprovado este ano e que já está sendo desenvolvido. As experiências interessantes devem ser partilhadas. Por isso convido os leitores deste blog para que comentem, sugiram, proponham, ou para que partilhem outras experiências e projetos. Para assistir carregar a apresentação e avançar manualmente clicando na seta preta (recomendo ativar fullscreen em More).

2 de agosto de 2010

Escolápios - Brasil

Carregar clicando na seta preta. Recomenda-se visualizar "Fullscreen" (em More) e avançar manualmente.

18 de maio de 2010

Recomendação...

Um dos Blogs que sigo fielmente é "Teología sin censura" de um conhecido teólogo espanhol, José Maria Castillo. Neste meu blog aparece o link da última postagem de forma permanente. No entanto,hoje quero destacar seu último escrito. Está em espanhol, claro, e escrito desde o contexto social espanhol (crise econômica sem precedentes) mas acho que vale a pena fazer o esforço para traduzir a linguagem e o contexto, principalmente eclesial.
Altamente recomendado para quem trabalha e sonha com uma Igreja diferente; para quem almeja uma vivência mais autêntica da fé cristã; para quem não se conforma com esta instituição esclerosada: clique aqui para ler.

30 de dezembro de 2009

Releitura Natalina do Gênesis.

Há milhões de anos apareceu na terra a primeira célula viva, capaz de existir por si mesma. Não era mais do que um ser microscópico, diminuto, quase invisível, mas suficiente para começar a sonhar com ele. E é que não consigo evitar sonhar cada vez que percebo um alento de vida ...

Este primeiro broto de vida foi-se desenvolvendo, evoluindo, se transformando. Assim foram surgindo toda classe de animais e plantas, a natureza ia tomando forma. Durante milhões de anos eu a acompanhava, a observava e não deixava de me emocionar com suas mudanças e novidades. Não obstante, a natureza, tinha algo que eu não acabava de aceitar.
Sempre sobrevivia o mais forte, o melhor adaptado, enquanto os fracos ficavam no caminho da evolução e desapareciam. Mas, se eles eram os que de mais cuidados e ternura precisavam! Porque a própria natureza os abandonava quando mais desprotegidos estavam? Os grandes engoliam os pequenos, os fortes se esqueciam dos fracos, cada qual preocupado somente de si mesmo.
Alguma coisa não estava bem feita ou, falando melhor, faltava algo… até que apareceu o ser humano.
Com a sua chegada acabei de me encher de felicidade e esperança. Um ser capaz de pensar, de inventar, de transformar o que tinha ao seu redor. Um ser livre, capaz de tomar decisões além das leis da natureza. Um ser capaz de amar. Um ser que podia sentir além do que olhava e tocava, que podia me procurar chamando-me por meu nome. Por fim alguém com quem compartilhar minha vida, a quem me dar a conhecer, a quem amar! O homem e a mulher eram o mais perfeito, mesmo com as suas fraquezas e limitações, que a natureza tinha formado e eu aproveitei a ocasião para colocar nele todo meu amor.
Há muitos milhares de anos que, junto ao homem e à mulher, começamos a fazer historia. Eu tentava que suas decisões foram as mais acertadas, pensando somente na sua felicidade, porque nela estava também a própria felicidade.
Não obstante, o ser humano é duro de entendimento e nem sempre aproveitava todo o amor que eu lhe entregava. Por sua obstinação empenhou-se em fazer as coisas sem me levar em conta e, esquecendo seu Pai, acabavam também esquecendo que eram irmãos.
Por isso, eu não deixava de enviar para eles profetas, que lembravam sempre que o caminho da felicidade não era ser como animais, mas ser plenamente humanos, o que é igual a ser irmãos. Os profetas lhes falavam de justiça, paz, perdão, conversão… mas eles não escutavam… e assim andavam…
Finalmente não tive outra solução que me fazer um deles. Escolhi um casal jovem, simples, bom, como as pessoas das que eu gosto, e por meio deles realizei o que nem eu mesmo pensava que podia se fazer. Meu amor, minha ternura, toda a misericórdia de que sou capaz se fizeram homem numa criança, em Jesus de Nazaré. Há mais de dos mil anos disso, mais eu lembro como si fosse hoje. José e Maria andavam viajando quando chegou o tempo de dar à luz. Bateram muitas portas, mas nenhuma lhes foi aberta. Finalmente procuraram um cantinho escuro, um estábulo, quente pelos animais que havia, aconchegante pelo humilde. Era um lugar tranqüilo, afastado da cidade, no meio da natureza que um dia viu nascer os primeiros homens e mulheres.
Esta vez não era mais um menino que nascia. Esse dia eu me fiz homem, era Deus quem nascia. No começo tive medo. Ser uma criancinha, fraca, necessitada, tão vulnerável e frágil. Mas, se não me mostrava assim, como faria para que até a última e mais pobre das pessoas deparasse em mim e sentisse um pouco de ternura e compaixão, isso que a sociedade fala que não presta porque não produz lucro? No entanto, alguns sim que descobriram que esse menino era especial; na sua pobreza, na sua fraqueza, na sua fragilidade, acharam-me, o Deus que tanto procuravam e de quem o esperavam tudo. Eram os mais pobres, os pastores. Quando chegaram até a gruta onde eu estava, com meu pai José e com minha mãe Maria, tudo encheu-se de alegria. Chegavam cantando, trazendo presentes muito humildes, mas nascidos do mais profundo dos seus corações. E por onde passavam gritavam: “Deus está conosco, nasceu nosso Salvador”.
Quem podia pensar nisso! Foram os marginalizados, os mais pobres, os únicos que souberam me descobrir nesse menino deitado na manjedoura. Como hoje continua acontecendo, os únicos que sabem apreciar de verdade meu nascimento são os pobres e excluídos. Deve ser que a pobreza faz com que tenhamos um coração mais livre para amar, e só quem ama pode me conhecer.
Mas, o verdadeiramente importante, não é que um dia me fiz menino, senão que, desde então, eu continuo a fazê-lo. Meu Filho Jesus, continua nascendo para mostrar o grande amor que lhes tenho, para que conheçam a Salvação que desejo para todos, para que acolhendo Jesus, presente em cada homem e mulher necessitado, conheçam a verdadeira felicidade, a que vem do amor.
Hoje volto a nascer, em cada menino que vem à vida com um futuro incerto, em cada rejeitado por tanta pousada cheia, em cada necessitado de vida. Somente vocês podem me ajudar a nascer! Anunciem com suas vidas e com suas obras que Deus quer nascer e preparem um leito quente nos seus corações! Vão às ruas, porque hoje, estou nascendo em muitos barracos, nalgum beco escuro! Procurem-me e me ajudem a viver! Pode ser que esta seja a sua última chance, a última oportunidade para amar, a última ocasião para me conhecer, a última possibilidade para serem felizes.