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6 de setembro de 2013

Uma só palavra

Uma só palavra 
Pode definir o destino do mundo
Uma só palavra
De quem não nos representa
De quem não escolhemos
De quem não nos conhece
Nem sabe nada 
Dos nossos anseios
Das nossas necessidades
Dos nossos sentimentos

Uma só palavra
Para saber se haverá amanhã
Se os nossos filhos poderão sorrir
E a nossa esperança dar seus frutos
Uma só palavra
Para sonhar e semear o futuro
Ou chorar de raiva pelo presente perdido

Uma palavra 
Que nos torne mais humanos
Ou bem uma palavra
Que acorde o monstro que levamos dentro
Uma palavra 
Que nos faça irmãos
Ou essa outra palavra 
Que nos converte em animais

Uma só palavra
Pode marcar os rumos da humanidade
Uma só palavra
De quem governa o reino da ambiguidade
O presidente de uma pátria sem povo
Com uma bandeira ensanguentada
De um Estado fracassado e hipócrita
Que somente sabe cevar os ódios

Uma só palavra
Pode destruir ou salvar o mundo
A palavra de quem frustrou os sonhos
Nossos sonhos de um mundo diferente
Seus próprios sonhos de uma democracia real
A palavra daquele que o mundo
Reconheceu como defensor da paz
E hoje urina nela sem pudor nenhum
Para manter seus privilégios a preço de humanidade

Uma só palavra
Pode marcar a história
Ou iniciar sua extinção

Uma só palavra
E todos esperamos e exigimos seja esta:
PAZ!

8 de agosto de 2011

Os clamores do mundo

No meio de um mundo em transformação, agitado e convulso, surge em mim uma dúvida que se desdobra e multiplica em mil perguntas e questionamentos. Realmente estamos interessados em conhecer o mundo que habitamos, ou substituímos o mundo real pelo “meu pequeno mundo”, no qual eu (com as minhas preocupações e necessidades) sou o centro gravitacional?
São muitas as tragédias que acontecem a cada dia, algumas vêm se arrastando na história atual, deixando seu rasto de morte e dor; outros são acontecimentos recentes que desestabilizam a ordem estabelecida, perturbando a tranquilidade almejada pelas classes acomodadas do mundo e seus dirigentes. Algumas experiências estão ainda em gestação e nem sabemos no que resultará, mas já estão apontando para um horizonte novo, destacando a possibilidade e a necessidade de pensar o futuro desde outras referências diferentes das usadas até agora.
Quero compartilhar alguns dos acontecimentos atuais que mais pesam na minha consciência mundial, com uma breve descrição e algumas reflexões críticas simples. (Continuar lendo)
A GlobalRevolution, inspirada nos movimentos cidadãos surgidos na Espanha nestes meses como reação à crise econômica e às políticas oficiais implementadas para enfrentá-la. Conhecida com diferentes nomes tais como SpanishRevolution, movimento 15M, Indignados, ela reúne cidadãos em assembléias, acampamentos e marchas nas principais cidades do país com uma mensagem clara: “não somos mercadoria”. Segundo eles os problemas sociais e econômicos que estão vivendo os países ocidentais não têm sua causa na crise, mas no sistema mesmo. Os governos enfrentam a crise aplicando fortes recortes nas políticas e gastos sociais, “democratizando” os custos da crise entre a população que, de fato, já vêm sofrendo as consequências da mesma (desemprego, inflação, bolha imobiliária, juros e hipotecas...). Os prejuízos da crise são socializados, mas nunca foram socializados os lucros das grandes corporações e bancos, verdadeiros responsáveis pela crise. Uma revolta de indignação está enchendo praças e ruas com milhares de pessoas, perpassando gerações, ideologias, religiões, nacionalidades, com uma luta não-violenta em favor de uma democracia real e participativa, que privilegie a sociedade e não os índices econômicos, as pessoas e não os interesses corporativos, a justiça social e não a depredação dos bens públicos por parte de políticos corruptos, profissionais da malandragem. O que começou com um acampamento numa praça de Madri, aos poucos está se espalhando por muitas cidades da Espanha, Europa, América, Oriente Médio... O que resultará de tudo isto, não sabemos, mas o certo é que estamos num momento muito interessante, numa revolta social que reflete o desgaste das classes até agora privilegiadas e que agora sofrem as consequências de políticas econômicas desumanas e enganadoras. O desgaste dos países que foram colocados como modelo de progresso econômico e político. Talvez o fim de um sistema que, no meio da crise, tenta se sustentar e reerguer a qualquer preço.
A insurreição civil nos países árabes contra governos quase ditatoriais e seus exércitos. Alguns países já não serão mais o mesmo, como o Egito e a Tunísia. Outros continuam envolvidos em fratricidas guerras, alimentadas pelos países representantes da verdadeira democracia e da liberdade, que nunca tiveram problema para comprar e vender favores, amizades e alianças, como acontece na Líbia. E outros países envolvidos em sangrentos conflitos, sofrendo igualmente as consequências de regimes autoritários e corruptos, com povos reprimidos com força brutal e desproporcionada, são intencionalmente ignorados por esses mesmos representantes da democracia e da liberdade, é o que aconteceu com o Bahrein, Iêmen, e agora chega a limites escandalosos na Síria.
Dramática é a situação da população de Somália, no meio de uma guerra entre a milícia islâmica radical de Al Shabab e as tropas de um governo inexistente depois da saída do último ditador, apoiados pelas tropas da União Africana, representando a democracia e a liberdade (e garantindo os interesses dos países ocidentais nessa região estrategicamente tão importante). A seca prolongada, décadas de guerra, milhões de refugiados e uma consequência terrível: a pior crise alimentar desde os anos 90, quando a fome assolou o país. Vinte e nove mil crianças já morreram de fome só nos últimos três meses e a ajuda humanitária internacional não chega por culpa dos conflitos armados. A seca não é a causa primeira desta situação, mas o detonante final de uma história de exploração, devastação colonialista, guerras entre blocos ideológicos, conflitos religiosos, etc. Onde estão os responsáveis? Talvez lucrando mais uma vez com suas campanhas “humanitárias”.
E a Noruega nos surpreendeu! Triste surpresa quando uma pessoa decide, por motivações ideológicas e religiosas, assassinar 93 pessoas. Um fanático religioso, um extremista racista e misógino, que se achava um cavaleiro templário lutando em nome de Deus, vingando as políticas tolerantes com muçulmanos, ciganos, negros e pobres em geral. Um homem mais inteligente que os outros, um visionário que intuiu o que os demais não podem ou não querem ver: que neste mundo não há espaço nem futuro para todos, por isso as raças superiores devem eliminar, excluir, isolar todos aqueles que ameacem a salvação do “povo eleito”. Um louco ou simplesmente o resultado de uma sociedade egocêntrica e materialista? Uma sociedade fundamentada no consumo ilimitado de uns poucos privilegiados, à custa de uma maioria esquecida que paga com sua miséria os excessos da minoria e que, agora, é vista como ameaça para o bem-estar alcançado.
E o que dizer dos conflitos que se perpetuam no tempo, transformando o que era uma “guerra preventiva” em um estado de guerra permanente? Quantos inocentes pagaram com suas vidas o desejo de vingança de um estado que quando quis, brincou com a violência no mundo todo? Quantos sofrem até hoje com as mudanças arbitrárias na política internacional dos Estados Unidos e seus aliados? Poderíamos fazer uma lista enorme com os nomes de pessoas ou grupos que foram treinados, protegidos, armados e financiados pelos diferentes governos norte-americanos que, em um determinado momento, se transformaram em inimigos da liberdade e dos direitos humanos, em terroristas sanguinários e desestabilizadores das democracias, da paz e da ordem mundial. O caso mais claro e conhecido é o recentemente executado Osama Bin Laden, mas poderíamos citar tantos... Iraque e Afeganistão continuam lotando os jornais com ataques, atentados, mortos e sofrimento. Quando na história da humanidade a violência resolveu um só conflito? Não aprendemos porque não nos interessa aprender.
Este é o mundo que temos. Poderíamos continuar com outros conflitos e situações dramáticas que acontecem a cada dia. A minha preocupação continua sendo a mesma: tudo isso tem alguma coisa a ver comigo? Sinto-me parte deste mundo, me afeta o que nele acontece? Interesso-me por compreender as causas e consequências dos acontecimentos ou sou um simples espectador?

11 de abril de 2011

O sangue inocente clama desde a terra

Oswaldo Guayasamin.
O sangue inocente clama desde a terra
Foi vertido sem piedade
Extraído sem dor nem motivo
O que semeamos neste mundo
Que seus frutos nos espantam?

Vidas e sonhos esparramados sem sentido
Choramos a morte injusta e antecipada
Quando bate na porta da nossa casa
Quando fala nossa língua
E salpica com crueldade nossa rotina

Mas são muitos os Rios que acontecem a cada dia
O massacre é mundial e ninguém se questiona
Quem chora os milhões de assassinados pela fome?
Quem faz própria a dor dos miseráveis?
Por que umas vidas são mais vidas que outras?

Costa de Marfim, Líbia, Afeganistão, Iraque
O mundo em guerra não nos abala
E sonhamos em ser como aqueles
Que têm a morte por companheira
Aqueles que perderam o rumo e o sorriso

Ergue o coração e a raiva, humanidade!
Não permitas mais ultrajes nem mais indiferença
Que não arranquem mais filhos do teu seio
Que ninguém se sinta em paz até que a paz reine
Que a vida seja para todos e por todos protegida

4 de abril de 2011

Reclamações da paz

 
Quem te ensinou a viver
não falou contigo que o amor não mata
que a pessoa é sagrada
e o diálogo nos salva?

Não te explicaram
ao surgirem sozinhas as inevitáveis brigas
que o perdão nos honra
e a vida decepada não volta?

Nunca te mostraram
ao fugir desbocada tua primeira raiva
que a ira semeia feridas
e o ódio, afinal, nos afoga?

26 de dezembro de 2010

Vamos brincar de ingênuos

vamos brincar de ingênuos

eu serei o rei do país dos ingênuos
um rei que trabalhe e viva como o povo
preocupado com que tudo seja de todos
dialogante e compreensivo com todos os povos
a paz será uma ordem e o respeito ao diferente uma lei

eu serei o ministro ingênuo da economia
criarei um plano nacional de combate à riqueza
para evitar mais mortes por culpa dos excessos
os salários serão estabelecidos segundo as necessidades
e não as necessidades criadas segundo os salários
ninguém passará fome porque ninguém sofrerá de obesidade

eu vou ser o ministro da defesa ingênua
a minha primeira ordem será radical e inquestionável:
proibir a fabricação, compra e venda de armas
serei o ministro da paz e nunca da guerra
transformarei os militares em socorristas
e os quartéis em escolas de diálogo e compaixão

eu quero ser ministro ingênuo da cultura
e a partir de hoje será obrigatório pensar criticamente
quem se deixar manipular, quem copiar ou renunciar a escolher
sofrerá uma pena de reeducação, até conquistar sua liberdade
proibirei as formaturas, porque ninguém parará de estudar enquanto viver
e será tratado como terrorista quem se achar detentor da verdade absoluta

vamos brincar de ingênuos
e fazer um pouco mais feliz a vida de todos
brinquemos de idealistas sonhadores
e transformemos o mundo em um grande brinquedo
para que mais ninguém saiba o que é a tristeza e a solidão

1 de fevereiro de 2010

"É tempo ainda de amar sem fronteiras"

Com esta frase inicia-se a música "Comunhão da terra", da Missa Cabocla (da banda Raízes Caboclas), e com ela quero começar este comentário, refletindo e partilhando a experiência vivida por mim em Amazonas ...




Pelo terceiro ano consecutivo, no mês de janeiro, participei como assessor do curso de teologia organizado pelo Projeto Teologia Viva de Belo Horizonte e a Diocese de Alto Solimões (Amazonas), com a participação de mais de 60 agentes de pastoral de todas as paróquias e comunidades.
Foram três anos de convivência e profunda fraternidade, nos quais todos nos enriquecemos com a experiência, o pensar e o sentir de cada pessoa. Três anos de aproximação a uma realidade tão complexa e difícil como cativante. Três anos fazendo teologia numa Igreja cabocla, mestiça, popular, pobre economicamente, mas riquíssima em cultura, humanidade e testemunho cristão.
Nesse tempo conheci pessoas simples, profundas, alegres no meio de grandes dificuldades, disponíveis e comprometidas com uma Igreja viva e “em pé de testemunho” como diria Dom Pedro Casaldáliga. Neste tempo em que a Igreja brasileira se debate entre a resistência por manter com vida suas raízes libertadoras e evangélicas, e a tentação de acomodação, ou de concorrência com igrejas pentecostalistas, ou de procura do sucesso comercial... é bom respirar o ar fresco e fiel da Igreja de Alto Solimões. Começando pelo seu pastor, Dom Alcimar, um verdadeiro profeta, um homem claro, profundamente espiritual e, por isso, radicalmente comprometido com a vida digna de seu povo. Todos os dias agradecerei a Deus o presente de sua amizade. E falando de sacerdotes, não posso deixar de reconhecer aqui o apoio incondicional do Pe. Valdemir e a vida doada em cada pequena coisa do Pe. Elias. Mas eles não são nada sem suas comunidades, sem esse povo cristão, caboclo, pobre aos olhos do mundo, mas um tesouro no coração de Deus e da Igreja.
São muitos nomes e rostos que ficarão para sempre gravados no meu diário afetivo. Vocês fazem parte da minha história, da minha vocação e da minha vida. Agora, envolvido de novo nos trabalhos administrativos e pastorais de nossas obras escolápias, entre uma reunião e outra, seus olhares, sorrisos, perguntas, sonhos, preocupações... emergem no meu coração, me levando numa viagem por rios, florestas e igarapés, que alegram minha rotina e alimentam minha esperança: o Reino está surgindo. 
É tempo ainda de amar sem fronteiras, superando distância e tempo... no amor de Deus nos encontraremos todos num eterno abraço de paz, partilhando o tucumã e açaí com farinha, dançando o quatipurú, ou de mãos dadas na luta pela paz e a justiça.
Muito obrigado, Diocese de Alto Solimões. Que Deus continue fazendo de vocês uma bênção para este mundo.

16 de dezembro de 2009

Quando chegará o dia?

Mais uma poesia antiga resgatada do meu baú afetivo; mais um canto de esperança e revolta para entoar com o coração e construir com as mãos ...

Quando chegará o dia em que não existam mais carrascos, em que possamos olhar-nos todos sem rancor nos olhos, em que não haja ninguém por sobre outro, em que as únicas lágrimas derramadas sejam pelas dores de parto?

Quando chegará o dia em que os últimos sejamos todos, porque se acabaram para sempre os lugares dianteiros, em que todos corramos ajudando-nos, em que vença quem mais ama, em que o suor seja partilhado, em que na festa entremos todos?

Quando chegará o dia em que o pranto seja estranho, em que a dor seja força e a esperança convicção, em que todos sejamos guias, em que os fortes se sintam fracos e se deixem ajudar sem receio?

Quando chegará o dia em que a fala seja diálogo e discutamos cantando, em que todos conheçamos a melodia e desafinar nos cause riso, em que sonhar seja de graça e viver seja uma aventura?

Quando chegará o dia em que amemos sem ciúmes, em que nos demos sem troca, em que entreguemos o melhor e não o que nos sobra, em que riamos com todos sem nos importar com o barulho, em que aprendamos do outro só com a sua presença?

Quando chegará o dia em que a morte seja só um até logo e as despedidas sejam sempre agradecidas, em que o tempo não nos controle e os relógios sejam animais de estimação, em que Deus nos visite e no amor nos façamos um?

13-10-97

13 de dezembro de 2009

Perguntas à Vida

Neste tempo de advento, de esperança ativa e transformadora, a realidade injusta e violenta tenta impor-se, mas a vida se revolta e nós revoltamo-nos com ela. Um poema velho para problemas, infelizmente, sempre atuais ...

– Vida, o que acontece? Por que você chora?
– Choro porque estão levando meus filhos
porque só o pranto me nasce
porque ser mãe arde
e porque o pródigo não aparece.

– Vida, o que você clama? Por que grita?
– Clamo porque me pisam as veias
porque só o grito me resta
porque estão secando minha alma
e porque me sufocam com calma.

– Vida, o que você teme? Por que não se revolta?
– Temo que se achem mais fortes
que me tenham por dócil
que nos humilhem mais fácil
e que matem o mais débil.

– Vida, o que você fez? Por que a perseguem?
– Amei-os como ninguém e entreguei-lhes quanto tenho
a verdade de seu crime
a verdade de sua origem
e a verdade que não querem.

– Vida, o que você vê? Por que não abandona?
– Vejo seu coração ainda humano e espero
que dê frutos o sangue dos vencidos
que cresça minha raiva até derrotá-los
e que, finalmente juntos, nos perdoemos.


13-10-97

6 de novembro de 2009

A escola de hoje e a necessidade da educação para a paz

Nos tempos atuais é normal ficar tristemente surpreso e revoltado pelos acontecimentos de violência que, cada vez mais frequentemente, acontecem na sociedade e, também, no âmbito escolar. Infelizmente, a violência faz parte da vida da gente. Será possível educar para a paz nesta sociedade violenta? Acreditamos que sim, mais não resolvendo problemas de violência, não com paliativos pedagógicos, mas oferecendo e operando desde a educação uma verdadeira transformação da pessoa e da sociedade que temos. Porque a violência que vivemos hoje é uma das mais dramáticas consequências do modelo de pessoa que a sociedade do bem-estar nos oferece. Uma sociedade construída sobre a base do egocentrismo insolidário e do consumismo compulsivo, geradores de exclusão e injustiça, não pode esperar outra coisa que não seja a violência como recurso, meio ou fim ...

Palestra oferecida em diversos congressos pedagógicos organizados pela empresa Conexa Eventos de Belo Horizonte.

1 de outubro de 2009

A violência é para brincar... E só para isso.

Educar para a paz em meio a este mundo violento

Estamos assistindo, já desde algumas décadas, a um processo meteórico de aumento da violência no cotidiano da vida e das relações sociais. Hoje é normal, e infelizmente para muitos, emocionante, assistir ao vivo a dramas, tragédias, violência, morte... que acontecem em qualquer canto do mundo. As tecnologias nos aproximaram mais da realidade, possibilitando uma informação global em tempo real, mas também serviram para padronizar gostos, comportamentos e modas ...

O mundo urbano contemporâneo, com seu ritmo de vida frenético, com sua proposta de aproveitamento máximo de cada segundo para produzir materialmente e, desta forma, poder comprar depois. Este modelo de vida e de pessoa produz um altíssimo grau de frustração: todo o dia envolvidos por uma publicidade que alimenta ilimitadamente nossos desejos e a realidade que nos demonstra que não é possível ter tudo quanto se deseja. Esta frustração, somada ao estresse de quem tenta exprimir ao máximo os limites do real para satisfazer o maior número possível de desejos, acaba produzindo pessoas e sociedades à beira da paranóia. Frustração, estresse, individualismo, necessidade de satisfação imediata dos desejos, geram cotas imensas de agressividade que, quando não sabemos canalizar e transformar em impulso e força para a vida, facilmente se converte em violência (projetar em algo ou alguém a causa de minha frustração ou a solução aos meus problemas, descarregando contra ele minha agressividade).

Os comerciantes deste mundo, sempre ávidos de riqueza, descobriram que a violência atrai (seja exercida ou observada) para descarregar por meio dela a agressividade que nos asfixia e enjoa. A criança aprende a mexer com a violência por meio do jogo, da brincadeira, misturando muitas vezes o real com o imaginário. O próprio jogo vai ensinando onde estão os limites, se oferecendo como meio para descarregar a agressividade (inclusive de forma violenta) sem danificar ninguém. A violência é, e deveria ser, somente um elemento de jogo, irreal, ilusório. Infelizmente os interesses comerciais fizeram da violência um produto de mercado, de consumo. Estes, aliados às tecnologias, vêm criando uma grande confusão entre o real e o virtual, o experiencial e o ilusório, o desejo e sua satisfação. O mercado do desejo coloca na nossa frente a possibilidade de superar todas as nossas frustrações e complexos. Com um pouco de prática podemos ser chefes de uma facção mafiosa, heróis num conflito armado internacional, libertadores de uma nação ou, para quem não tem espírito altruísta, assassinos em série ou em massa, segundo o gosto do massacrador.

Neste mercado do desejo nada nos deixa satisfeitos, temos que inventar a cada dia uma nova “experiência extrema” que nos faça experimentar o risco, a emoção, a adrenalina saindo pelos poros da pele, para sentir que estamos vivos. A violência tem essa capacidade, nos colocando no limite da vida mesma (seja própria ou de outro ser), podendo “brincar” de sermos deuses, donos do último alento de vida de um ser. Ter na mão a capacidade e a possibilidade de decidir sobre algo realmente fascinante, tão grandioso e indefeso ao mesmo tempo, como é a vida de um ser.

Unamos agora os dados: seres frustrados e estressados, numa corrida louca por satisfazer imediatamente todos os desejos, incapazes de distinguir o real do imaginário, sem rumo nem projeto na vida fora da busca de emoções e experiências radicais que permitam estar “no limite”, dentro de um mercado global onde tudo se compra e se vende (também o outro), onde a violência é um produto a mais para consumo e onde com um simples clique posso virar deus... Pensando bem, é para sair correndo!

Ao contraio, é para assumir com mais força e responsabilidade nosso compromisso com a educação, desde um modelo de pessoa, de sociedade e de felicidade diferente. Acreditamos que a pessoa é muito mais que o que pode comprar, adquirir ou possuir. Acreditamos que a felicidade não se encontra no nível de consumo, mas na qualidade humana. Acreditamos que ser humano é ser irmão, não concorrente. Acreditamos que a vida vale a pena quando temos um horizonte e um sentido: o horizonte nos orienta e o sentido nos alenta. Acreditamos que pensar primeiro no outro nos faz perceber com uma ótica nova os problemas e necessidades próprias, sendo mais fácil relativizá-los e enfrentá-los. Acreditamos que a vida a serviço de um mundo melhor é mais interessante, emocionante e “extrema” que viver afogado pelos desejos e necessidades narcisistas. Queremos aproveitar este mundo global para educar uma “consciência global”, reconhecendo em cada ser humano meu irmão e minha irmã. Queremos fazer uso das tecnologias para nos aproximarmos mais do mundo, de suas maravilhas e de seus sofrimentos, não para fugir dele ou para criar nosso “mundo virtual” egocêntrico e narcisista. Queremos educar para a resolução pacífica dos conflitos, não para evitá-los, como meio que são para aprender a dialogar, a reconhecer a verdade que está no outro e a respeitar a dignidade de todo ser humano. Queremos mandar a violência de volta ao mundo irreal do jogo e da brincadeira, onde as armas depois viram o que de fato são: ferramentas de trabalho e estudo; e ninguém fica machucado pelas balas de ar e as bombas que só fazem barulho. Queremos educar na paz que nasce da não-violência ativa, da vivência de atitudes pacíficas e do compromisso com a causa da justiça.

Queremos fazer do Colégio São Miguel Arcanjo um lugar de convivência e diálogo, de solidariedade, de compromisso pela paz e a justiça, de inclusão e de fraternidade. Estamos sonhando? Pode ser... Alguns sonham que chegarão a serem ricos, famosos e poderosos (e acabam vivendo a mesma vida frustrada de todos); outros que poderão comprar todas as coisas que a publicidade lhes oferece (e acabam hipotecando a saúde física, mental e até a própria família) pensando que assim serão felizes; outros sonham ainda ser o centro do mundo, como se este existisse só para e por eles (e acabam se tornando escravos de sua própria ilusão). Já que todos sonhamos, sonhemos pelo menos alguma coisa diferente e interessante, um sonho que possa oferecer uma alternativa para não continuar repetindo erros, um sonho que ajude a mudar um pouquinho a realidade, um sonho que se transforme em horizonte e em sentido.

Jesus de Nazaré sonhou e sacrificou a vida por fazer o sonho acontecer. São José de Calasanz sonhou com o direito à educação para todas as crianças, independente do estrato social e econômico, hoje é uma conquista quase universal. O Colégio São Miguel bebe na/da herança de Jesus, de São Jose de Calasanz e de tantas pessoas que se entregaram por educar libertando para melhorar este mundo. Hoje essa responsabilidade está em nossas mãos. Que Deus nos ajude!!!