8 de fevereiro de 2015

Clandestino

Sem rosto
Sem nome
Sem história
Uma sombra desconhecida
Um grito amordaçado
Invadindo a noite proibida
Pulando os muros de ferro

Os oceanos engoliram suas memórias
Os rios arrastaram suas esperanças
Por desertos e montanhas
Por estradas e trilhos
Multidões anônimas
Semeadas nas entranhas da terra

Quem inventou as fronteiras?
Quem criou essa asneira chamada pátria?
Quem dividiu a família humana?

Neste terreiro cósmico
Não existem ilegais
Ninguém deveria se sentir estranho
Nesta casa planetária
Todo rosto é irmão
Toda vida é querida
Todo sonho é sagrado

20 de julho de 2014

Revolução

Um rio de vontades
Arremetendo com fúria
Contra os muros levantados
Pela indiferença histórica

Um furacão de raivas
Arrancando de raiz
Séculos de injustiças
Edificadas com sangue

Uma multidão de anônimos
Erguendo a voz e o canto
Contra o silêncio imposto
Pelo terror estabelecido

O mundo se levantando
De um letargo forçoso
De uma noite opressora
De um inverno eterno

Uma revolução taciturna
Um povo novo ressurgindo
Um amanhecer desabrochando
Uma esperança se engendrando

14 de junho de 2014

Meditações

Nasceu o sol por trás do horizonte
E a escuridão que se achava eterna
Com um vermelho arrebatamento
Abandonou envergonhada
O palco que a exaltou

Nada é eterno neste universo infinito
A não ser o tempo que nos conduz
Por esta sedutora aventura
Indo e vindo
Surgindo e sumindo
Alçando e descendo
Amando e morrendo

Ninguém permanece para sempre no topo
O impiedoso tempo encarregar-se-á
De demolir os alicerces
De tão arrogante tentativa
As mentiras que o sustentavam
As ofensas que o alimentaram
A hipocrisia que o protegia

26 de abril de 2014

Uma nuvem peregrina

Cansada se arrastava uma nuvem
Deixando um rastro de aflição e pranto
Nem o canto dos pássaros 
Nem a melodia dos ventos
Conseguiam animar seu passo

Quais sinistros presságios 
Arrojará sua andança?
Até onde chegará
Sua infeliz odisseia?

Por que esse abatido gesto?
Por quem tão lastimoso rosto?
Perguntava interessado
Um fugitivo passarinho

Desde onde arrastando essa pena?
Até quando empurrando essa dor?
Indagava intrometida
Uma apreensiva borboleta

Mas a nuvem peregrina
Prolongava sua dolorosa romaria 
Engolindo em segredo suas dores
Soluçando copiosamente suas mágoas

9 de abril de 2014

Repetidamente

Intentando uma e outra vez
Insistindo sempre mais uma vez

Sem reparar no cansaço
Sem render-se ao fracasso

Com o semblante renovado
Com a esperança imaculada

Desvendando o horizonte certo
Desenhando sonhos no céu

Até descobrir a estrela esperada
Até despontar a jornada definitiva

Uma e outra vez
Sempre mais uma vez

8 de março de 2014

Corpo de mulher

Na pele curtida
As marcas profundas
De uma história
Sofrida em silêncio
De um desprezo
Carregado no rosto
De uma ofensa
Injetada na alma

No olhar infinito
Os sonhos germinados
De uma vida ditosa
Sem ódio nem raiva
De um abraço eterno
Sem custo nem ameaça
De um beijo sincero
Sem medo nem pena

Na memória florida
Os nomes gravados
De quem semeou a vida
Com cada gota do seu sangue
De quem levantou a bandeira
Para conquistar o direito
De quem engravidou de rebeldia
Para engendrar um futuro novo

No corpo firme
Os sinais manifestos
De feridas sangrantes
Choradas em noturna solidão
De sacrificados esforços
Na humildade do afeto sem par
De luminosas gargalhadas
Geradas nas redes do amor

21 de fevereiro de 2014

A festa dos idiotas

Cantamos sem refletir
Comemos sem digerir
Beijamos sem saborear
Amamos sem renunciar

Na festa dos idiotas
Nada tem sentido
Tudo virou automático
Sem criatividade
Nem espontaneidade
Alienado rito tragicômico
Repetido até a extenuação

Na festa dos idiotas
Os mais espertos têm a batuta
E dirigem a orquestra
Sem jeito nem maneira
Enquanto os idiotas da vida
Arrastam seus passos
Num frenesi alcoolizado
Num delírio narcotizado

Na festa dos idiotas
Palavras vazias
Enfeitam as paredes e as salas
Enchendo os olhos 
De fascinados leitores
Que engolem a vida
Sem questionar nem sentir

Na festa dos idiotas
A ideologia é servida
Em sedutores pratos
De manjares exóticos
Enquanto empapuçados convidados
Dormitam recostados
Sobre a miséria do mundo

Existimos sem rumo
Dançamos sem gosto
Sofremos sem pranto
Morreremos sem luto

14 de fevereiro de 2014

Me chamarão de louco

Me chamarão de louco
Por sonhar com estrelas impossíveis
Por desenhar florestas no deserto
Por perguntar aos ventos
Quem causou esta barbárie

Me chamarão de louco
Por erguer o rosto ao chegar a tempestade
Por resistir em silêncio agravos e calúnias
Por semear no crepúsculo
Harmonias íntimas de amor e de luta

Me chamarão de louco
Por confiar ainda na bondade humana
Por esperar cada noite o renascer do dia
Por proclamar aos gritos
Que a vida está viva no coração da gente

5 de fevereiro de 2014

Caminhei silencioso

Caminhei silencioso
Para não acordar os ventos
Para não alertar as estrelas
Para não acender o sol

Caminhei silencioso
No meio de sombras
No meio das presas
No meio da dor

Caminhei silencioso
Sem procurar um destino
Sem olhar o vizinho
Sem importar o suor

Caminhei silencioso
Confiando nos sonhos
Confiando nos outros
Confiando em vão

Caminhei silencioso
Passo a passo pela vida
Passo a passo pelo mundo
Passo a passo pela fé

23 de dezembro de 2013

Está chegando

Está chegando
Devagar 
Sem fazer barulho
Acariciando a terra em cada passo
Beijando o vento em cada alento

Está chegando
Atravessando decididamente
Obstáculos e tentações
Evitando com destreza
Espinhas e ameaças

Está chegando
Para proclamar aos ventos
Que o sol eterno já vai nascer
Que acabou o reinado 
Das sombras e da morte
Erguendo a esperança
De quem vive abatido

Acordemos!
Gritemos sem medo ao mundo
Que está chegando o amanhã
E como uma folha em branco
Estenderá seu horizonte
Para que nele desenhemos
Com o pincel do coração
E a tinta das decisões
Cada um dos nossos sonhos
Cada uma das nossas lutas
Delineando com amor
Os nomes e os rostos
Que fecundarão nossa memória

11 de dezembro de 2013

Em um dia tormentoso

Em um dia tormentoso
Abri meu coração
Amedrontado
E descobri com surpresa
Feridas eternamente abertas
Flores ainda coloridas
Risos e olhares afetuosos
Lágrimas e dores semeadas
Amores com temores misturados
Esperanças e fraquezas entrelaçadas

Em um dia tormentoso
Abri meu coração
Fugitivo
Despertando sem pretender
Agradecimentos e remorsos
Vergonhas e satisfações
Dívidas e saudades
Afetos e desenganos

Em um dia tormentoso
Abri meu coração
Complicado

2 de novembro de 2013

Francamente

Nasci palhaço
E morrerei 
Com um sorriso
Enfeitando meu coração

Já chorei no meu caminho
Menos do que deveria
Mais do que gostaria
Engolindo em silêncio o pranto
Digerindo na solidão a dor

E reclamei muito também
Pelos defeitos não admitidos
Pelas feridas sem querer abertas
Por sonhos frustrados
E por guerras sofridas

Mas não tenho como fugir
Do meu destino cômico
Da risada que virou rotina
Da piada com que interpreto a vida
Da bobagem que rouba um sorriso
Até do mais fechado dos rostos

Nasci palhaço
E partirei rindo
Deste mundo paciente
Que suportou meu circo

25 de outubro de 2013

O céu abriu-se

Céu de Anzaldo após uma forte chuva de granizo
O céu abriu-se após a tempestade
Como um sorriso transparente
Sincero e acolhedor
E todos os olhares
Concentraram-se nele
Como aguardando uma palavra

O céu abriu-se em silêncio generoso
Invadindo os corações agitados
Pela violência do temporal
E os assustados rostos 
Sossegaram-se espelhando
A beleza do espetáculo oferecido

O céu abriu-se harmoniosamente
Inundando de luz o dia
Rachando as trevas
Com um vermelho libertário
Lembrando para todos
Que não há tempestade eterna
Nem escuridão que suporte 
O embate de um povo
Quando em rebeldia se levanta

12 de outubro de 2013

Autorretrato

Cheguei a este mundo
Carregando poucas coisas
Na minha mochila
Um sonho
Algumas canções
E uma alegria 
Que nada e ninguém 
Conseguirão murchar
Nem as injustiças 
Do poderoso
Nem as calúnias
Do invejoso
Nem a ironia 
Do arrogante
Nem o desprezo 
Do orgulhoso

Cheguei a este mundo
Sorrindo na dor
Cantando na solidão
Sonhando acordado
Com um amanhecer 
De luz para todos
Com flores e pássaros
Enfeitando a vida
Com melodiosas estrelas 
Pronunciando mil nomes
Com novas paisagens
Onde semear generoso
Um sorriso sincero
Um sonho de amor fraterno
E umas poucas canções

22 de setembro de 2013

Ares puros

Respiremos ares puros
Renovados
Revolucionados
Oxigênio gerado 
Nas risadas estrondosas das crianças
No olhar sincero dos apaixonados
No beijo nervoso da mãe novata
No abraço profundo do amigo fiel
Para que ninguém se asfixie mais
Nas poluídas atmosferas 
Que torturam e matam
No bafo que se eleva 
Do esforço ingente do operário explorado
Da tristeza silenciosa do indígena desprezado
Da bestialidade imposta à criança soldado
Da violência tatuada no rosto feminino
Do odor insuportável dos lixões habitados
Dos rios de sangue inocente vertidos na terra

Respiremos ares puros
Que renovem nossa alma
Que revolucionem nossa consciência
E nos comprometam a vida

6 de setembro de 2013

Uma só palavra

Uma só palavra 
Pode definir o destino do mundo
Uma só palavra
De quem não nos representa
De quem não escolhemos
De quem não nos conhece
Nem sabe nada 
Dos nossos anseios
Das nossas necessidades
Dos nossos sentimentos

Uma só palavra
Para saber se haverá amanhã
Se os nossos filhos poderão sorrir
E a nossa esperança dar seus frutos
Uma só palavra
Para sonhar e semear o futuro
Ou chorar de raiva pelo presente perdido

Uma palavra 
Que nos torne mais humanos
Ou bem uma palavra
Que acorde o monstro que levamos dentro
Uma palavra 
Que nos faça irmãos
Ou essa outra palavra 
Que nos converte em animais

Uma só palavra
Pode marcar os rumos da humanidade
Uma só palavra
De quem governa o reino da ambiguidade
O presidente de uma pátria sem povo
Com uma bandeira ensanguentada
De um Estado fracassado e hipócrita
Que somente sabe cevar os ódios

Uma só palavra
Pode destruir ou salvar o mundo
A palavra de quem frustrou os sonhos
Nossos sonhos de um mundo diferente
Seus próprios sonhos de uma democracia real
A palavra daquele que o mundo
Reconheceu como defensor da paz
E hoje urina nela sem pudor nenhum
Para manter seus privilégios a preço de humanidade

Uma só palavra
Pode marcar a história
Ou iniciar sua extinção

Uma só palavra
E todos esperamos e exigimos seja esta:
PAZ!

15 de agosto de 2013

Perguntas sem resposta

Me perguntaram 
Pelo significado da história
Pela bagagem que incansavelmente
Carregamos na memória
E não achei a resposta certa
Simplesmente fiquei calado
Relendo nomes e lugares
Revivendo afetos e feridas
Saboreando abraços e lágrimas
Agradecendo rostos e palavras

Me perguntaram
Pelo sentido da vida
Pela esperança que gratuitamente
Vai nutrindo nossos dias
E não soube responder certeiramente
Apenas fechei os olhos
Adivinhando um amanhecer em paz
Imaginando gargalhadas e beijos
Deleitando encontros e reconciliações
Sustentando meu compromisso diário

4 de agosto de 2013

Procuremos

Procuremos na memória
O frescor que nos roubaram
A alegria sequestrada
E a esperança clandestina
E quando chegarem, porque virão 
Os semeadores de trevas
Que não se atemorizem 
Os rebentos do nosso amor
Os brotos da vida 
Que vamos tecendo
Na trama dos nossos medos
No tear das nossas sombras

Procuremos no horizonte
O céu que nos foi prometido
Acariciando esta terra
Que abraça nossas lutas

Procuremos na distância
O encontro definitivo
Que aliviará nossas penas
Como bálsamo para as feridas

Procuremos no presente
A razão dos nossos esforços
Que aquecerá o nosso sangue
Quando a noite se faça eterna

28 de julho de 2013

Me pesa o mundo

Me pesa o mundo
Tomada de: http://mwfpress.com
Sei perfeitamente
Que não o carrego sozinho
E sei também
Que normalmente
É ele quem me carrega
Mas mesmo assim
Me pesa o mundo
Como uma carga gigante
Que tivessem colocado
No fundo da minha retina
Me pesa este mundo
Quando não amanhece 
Em todo seu esférico horizonte
Condenando a seus filhos
A uma eterna noite
Me pesa este mundo
Que não quer saber
Que a fome é mais cruel
Quando exibindo o prato cheio
Se proíbe o seu deleite
Me pesa um mundo
Que vira de costas
Para não atender os rostos
Que choram e tremem
Que faz de conta
E abandona friamente 
A quem fugindo da morte
Enfrenta fronteiras
E assalta as barreiras
Me pesa o mundo
Que fica mudo
E se evade surdo
Enquanto as armas detonam
A infância mais terna
Me pesa este mundo
Que se diverte e engana
Com fugazes fulgores
E opulentos excessos
Me pesa o mundo
Que vive na superfície
Ocultando e esquivando
O que na profundeza ocorre
Me pesa este mundo
Que narcotiza a consciência
Entorpecendo a raiva
Sepultando a mudança
Enaltecendo a indiferença

21 de julho de 2013

Tu estás em todos

Num frio amanhecer
Veio tua vaporosa figura 
Até a minha memória
Aquecendo as lembranças
Que agora me nutrem
Um rosto diverso
Um nome entre outros
Um corpo abraçado
Uma voz acompanhada
Porque tu és todos os corpos
Estás em todas as vozes
Te vejo em todos os rostos
Te encontro em todos os nomes

Num frio amanhecer
Veio até a minha presença
Tua vaporosa lembrança
Despertando o ardente desejo
De abraçar-te em todo abraço
De beijar-te em todos os rostos
De amar-te em cada encontro