1 de março de 2013

“O SUBSTITUTO”, um filme para repensar a vida.


Título original: Detachment (2011).
País: EUA.
Diretor: Tony Kaye.
Roteiro: Carl Lund.
Vencedor do prêmio do público na Mostra Internacional de São Paulo

O título original expõe de forma rápida toda a problemática do filme e dos seus personagens, o que não aparece refletido na tradução ao português. A palavra inglesa “detachment” pode ser traduzida como ”desapego” ou “distanciamento”, mas também “indiferença”. Isso é o que o filme retrata, de forma diversa, positiva e negativamente. O protagonista, um professor que somente faz substituições sem nunca assumir uma vaga fixa, vive carregando uma história familiar tortuosa que não acaba de assimilar. Chamado para realizar uma substituição em uma escola em um estado completo de caos, encontrará professores/as que não sentem apego nenhum pela sua profissão, estudantes desencantados e aborrecidos da vida antes mesmo de começá-la, adolescentes à procura de adultos em quem confiar e com os quais substituir pais negligentes ou ausentes. 

Durante somente três semanas o professor substituto (Henry Barthes) deverá enfrentar a doença (Alzheimer) e morte do avô, com quem viveu uma terrível história familiar; a vida de uma adolescente prostituta e maltratada, que acabará hospedando na sua casa; alunos violentos e sem perspectiva de futuro, outros com uma carga incrível de sofrimento e carentes do mais básico; professores/as que ainda tentam fazer o seu melhor com alunos/as que não estão para nada interessados em estudar, enquanto outros, carregando histórias pessoais trágicas, afundam na angústia e na depressão. 

O filme começa com uma epígrafe do grande Albert Camus: “E eu nunca me senti tão imerso e ao mesmo tempo tão desapegado de mim e tão presente no mundo”. Essa é a situação pessoal do protagonista. Talvez o único professor, de quantos o filme mostra, realmente interessado em educar seus alunos e não somente em transmitir conhecimentos. Um professor que tenta chegar ao centro da tempestade que os adolescentes vivem, questionando o que a sociedade lhes oferece como via única para suas vidas, descortinando os dramas que ocultam, denunciando a manipulação latente que sofrem.

A vida é dura, complexa, confusa. A vida de todas as pessoas, também a daqueles que tentam construir um futuro melhor, trabalhando para fazer a diferença. É difícil libertar os outros sendo ainda escravo. É impossível achar o caminho certo, enfrentar o caos da realidade, passar por cima de manipulações e humilhações, assumir feridas e ofensas, estando sozinho. Todos nós precisamos de uma mão amiga, alguém com quem caminhar, deixando para trás juízos, preconceitos, análises simples e estereotipadas da vida e das pessoas, alguém que nos aceite como somos e que saiba descobrir o tesouro existente dentro de nós. Essa deveria ser a missão de todo educador. Neste mundo tão complexo, todos nós deveríamos ser educadores e educandos, uns dos outros, para juntos descobrirmos os sendeiros da felicidade, para não afundar no caos e na dor.

Junto ao nosso protagonista aparecem outros professores e diretores escolares, desencantados, decepcionados, frustrados, em algum caso próximo já da demência. Os próprios problemas pessoais são carregados dia e noite, sem solução, sem oxigenação, condicionando todas as ações e decisões. Os problemas dos outros somente acrescentam mais carga de culpa, de vergonha, de desespero. Sem confiança, sem esperança, sem horizonte nem rumo, o professor acaba se transformando em vítima da vida, em objeto de chacota, de humilhação por parte de todos. Não tem nada para oferecer para os adolescentes porque não tem vida própria, somente um se arrastar dia após dia pela realidade hostil e violenta. Neste tempo complexo e difícil somente os indiferentes sobrevivem, mas isso é vida? 

O filme retrata de forma crua a realidade pessoal e social, os sentimentos mais íntimos de vidas sofridas, relacionamentos interpessoais insanos, um ambiente escolar dramático, o fracasso de uma política educativa concebida em escritórios de políticos, famílias que somente agravam a tragédia na vida dos adolescentes. 

O diretor combina de forma genial o filme e o documentário, levando o espectador a mergulhar nos sentimentos, nas vivências mais profundas dos personagens, principalmente do protagonista quem, desde seu próprio drama pessoal, tenta encontrar uma janela por onde fugir desta trágica barbárie. Não precisa exibir explicitamente os acontecimentos, não quer transformar o sofrimento em espetáculo. As lembranças, as palavras, as imagens são mostradas como flashes fotográficos. É bem significativo que a personagem que representa de forma trágica o caos e sofrimento da vida seja fotógrafa amadora, usando a fotografia para representar de forma artística a dor, a angústia, a solidão das pessoas que estão ao seu redor e de si própria.

Um filme questionador, provocativo, que impacta e nos leva a formular perguntas como: O que estamos fazendo com as nossas vidas? Até que ponto vivemos apegados aos nossos dramas? Até que ponto somos indiferentes diante da dor e sofrimento das outras pessoas? Que tipo de educador somos? Qual é a nossa missão como educadores neste mundo caótico?  

Para terminar, deixo aqui alguns diálogos do protagonista, a maior parte tirados das cenas que parecem mostrar a gravação de uma espécie de depoimento, de confissão pessoal.


  • “A maioria dos professores aqui, em determinado ponto, acreditava que podia fazer a diferença”. 
  • “Eu sei como é importante ter um rumo e também ter alguém que possa ajudar a entender as complexidades do mundo em que se vive”.
  • “Eu sou uma das poucas pessoas aqui que quer te dar uma oportunidade, agora eu só vou pedir pra você sentar e fazer o seu melhor”.
  • “Você já foi usada e descartada tantas vezes que até se acostumou com isso”.
  • “Eu perco muito tempo tentando não me envolver, para não me comprometer”.
  • “Devia ter um pré-requisito, um currículo para poder ser pai, antes das pessoas tentarem”.
  • “Incoerência é acreditar deliberadamente em mentiras sabendo que elas são falsas. Por exemplo: eu preciso ser bonita para ser feliz... ser magra, famosa, estar na moda... Os nossos jovens de hoje são ensinados que as mulheres são prostitutas, vadias, coisas para serem fornicadas, espancadas, envergonhadas. Isto é um holocausto publicitário, vinte e quatro horas por dia, pelo resto de nossas vidas. Os poderes instituídos vivem nos emburrecendo até a morte. Então, para nos defendermos e conseguirmos lutar contra a assimilação dessa burrice em nossos processos mentais, temos que aprender a ler, para estimular a nossa própria imaginação, para cultivar a nossa própria consciência, nossos próprios sistemas de crenças. Todos nós precisamos dessa competência para nos defender, para preservar as nossas mentes”.
  • “Todos temos problemas, coisas com as quais temos que lidar, e todos nós levamos eles para casa de noite, e levamos para o trabalho de manhã cedo. Eu acho que tudo isso, essa impotência, essa constatação, esse mal presságio, estar à deriva em um mar sem boia nem salva-vidas, quando você achou que seria você quem jogaria a boia”.
  • “Será que você nunca sentiu, nunca quis mandar alguém se ferrar, ir para inferno, porque a coisa está toda ferrada, a coisa está ferrada ou será que você não viu?”.
  • “O coração inteligente de uma criança pode desvendar as profundezas do mundo e dos locais sombrios, mas poderá entender o delicado instante de seu próprio distanciamento?”
  • “Nós nascemos assim, não há o que fazer, a não ser reconhecer como as coisas são injustas, e só isso não basta, eu não vou aguentar!”
  • “Somos todos iguais, todos nós sentimos dor, todos nós temos um caos em nossas vidas. A vida é muito, muito confusa, eu sei, não temos todas as respostas, mas eu sei que se você deixar rolar tudo dará certo”. 
  • “Eu queria que tudo tivesse sido diferente, eu tentei, entendeu? O negócio é que todos nós temos problemas e os nossos assuntos para cuidar. Alguns dias são melhores que outros, outros já não são tão bons, e tem dias que temos nosso espaço limitado por outras pessoas”.
  • “Muitos de nós acreditam que podem fazer a diferença e, quase sempre, nós acordamos e constatamos o fracasso”.
  • “Todos precisamos de alguma coisa para nos distrair da complexidade da realidade. Ninguém quer saber de onde tudo isso saiu. Ninguém quer saber da luta que é necessária para poder se tornar homem, para sair do mar de dores do qual todos temos que sair”.
  • “Temos essa responsabilidade de guiar os nossos jovens, para que eles não acabem se desmoronando, para que não acabem caindo no esquecimento, se tornando insignificantes”.
  • “Estamos fracassando. Fracassamos. Fracasso no sentido de que deixamos todo mundo na mão, incluindo nós mesmos”.
  • “Quando se anda pelo corredor ou se está na sala, quantos de vocês já sentiram o peso, fazendo pressão para baixo em vocês? Eu já.”

24 comentários:

  1. Melhor filme que já assisti. Poucos, digo, raros são os filmes que nos fazem refletir à cerca vida. "Detachment," é um retrato real do que sentimos; um retrato real de nossas dores, inseguranças, lembranças, traumas, que inevitavelmente tentamos repelir, porém não nos damos conta que esses sentimentos estão inerentes as nossas vontades. Há certas coisas que temos que sentir, para assim superar. Se tentar fugir, quando olhar para o chão, não haverá pegadas, pois estarás no mesmo local de onde nunca saístes.
    Repito: melhor filme que já assisti.

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    1. Tb amigo...p mim esse filme em termos de qualidade rivaliza apenas com Matrix.

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  2. Excelente filme e a resenha também gostei muito!!! As frases aqui colocadas são realmente impressionantes!

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  3. Parabéns pelo texto, disse tudo!!!

    Sei que ninguém vai ler pelo tamanho do texto, mas to nem ai pq escrevo pq gosto e não para que ou outros leiam, mas os auto suficientes os que se acham a bala....repensem suas vidas!!!!
    Não é por acaso que as coisas acontecem em nossas vidas, pois eu que sou apaixonada por filmes não conhecia este, hoje zapeando o face me deparo com uma cena bem marcante do filme e pensei nossa preciso ver esse filme o dia passou eu na minha idiotice e futilidade passei maior parte dele no salão.....rsrsr e assisti agora, nossa eu não consigo descrever o que sinto pois é um misto de tristeza, alegria, esperança, fracasso, desespero, tentativas, Jesus que filme é esse???? sei que sou fácil pra chorar mas esse filme arranca suas lágrimas mais profundas, aquelas que você guarda pra chorar um dia. "Fracasso. Todos nós fracassamos. Fracassado, num sentido, que decepcionamos todos. Incluindo nós mesmos. Gostaria de indicar esse filme a alguém que conheci faz pouco tempo Rodrigo Gomes que visse o filme e depois me contasse pq te indiquei, e se você ja viu então já sabe o pq rs...bom, não tenho mais palavras, até tenho mas se eu continuar vou continuar chorando.

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    1. Obrigado pelos parabéns e pelo seu texto, mesmo sem conhecer esse tal de Rodrigo... Todos temos que repensar nossa vida, principalmente nóa educadores... Abraço.

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    2. Eu tbm li o seu texto e acho que devias escrever para que outros possam ler....Parabéns

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    3. Eu acho que vi a mesma cena e estou em busca deste filme...

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    4. li seu texto viu! Acho que essa é a maior proposta do filme: suscitar em nós uma reflexão acerca destas problemáticas apresentadas.

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    5. Pois, é minha querida assiti também e posso compartilhar sentimentos como os seus:tristeza; alegria: não não é possível quando essa é uma preocupação minha, a formação de jovens, precisamos realmente Vê-los. Esperança: sempre pois como o personagem principal quem escolhe essa profissão com tantos problemas que temos que enfrentar, é necessário um certo grau de imensa paixão. Desespero: pelos meios de comunicação que cada vez mais manipulam as mentes de crianças e adolescentes os fazendo crer que são apenas índices de medição para governos sem nem um compromisso verdadeiro com a real educação. Tentativas: isso é que nos resta num meio insensato de muito que estão no governo aprovando "leis", para melhorar o sistema "educacional", gente que brinca de fazer educação não entenderia esse filme, pois não abarca as mentes dos "acham" que a sala de aula não é apenas depósitos de crianças e adolescentes, acrescendo números. Filme brilhante, reflexivo para o processo de nossa educação.

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  4. Parabéns pela riqueza em sua abordagem.

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  5. Leandro A. Parra11 janeiro, 2015

    Ótimo filme, que nos leva obrigatoriamente a várias reflexões, como, a insanidade da sociedade burguesa, que destroça à vida em geral de uma forma avassaladora, tratando os seres humanos em particular com absoluta indiferença, como sugere o filme, desde muito cedo; tudo sustentado pela célula básica da sociedade burguesa, que é o nucleamento familiar, responsável pela transmissão dos valores conservadores e tradicionalistas as crianças e aos jovens, isto quando não ocorre o fracasso absoluto da tal família, aí não resta praticamente a quem recorrer, e os indivíduos submetidos a isto, só poderão colher os frutos da desilusão, da indiferença social e do caos; deveríamos ou precisaríamos de um modelo mais próximo de uma convivência comunitária desde o nascimento de nossos filhos, algo que pudesse oferecer-lhes uma nova perspectiva, mais próxima do ser, da vida, da natureza, da convivência harmoniosa entre os seres vivos e o próprio planeta que habitamos, enfim, um mundo novo, totalmente diferente da máquina de destroçar seres humanos que é a sociedade capitalista...

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  6. Maravilhoso filme!!!

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  7. Percebo que todos os personagens nao tem com quem contar (embora alguns realmente queiram ter, como a aluna suicida, a prostituta, a namoradinha do professor, o marido da diretora, etc). Todos tem problemas, mas ninguém tem a compaixão de estender a mao ao outro ou mesmo ouvir os seus problemas. Algumas vezes isso fica bem obvio: O professor pendurado na grade da escola (“Vc consegue me ver aqui? Deus isso é tão terrível. Obrigado”), a conversa da suicida com o protagonista quando ela entrega o desenho na sala (“Vc conversaria comigo ? Quando vc olha pra mim é como se vc realmente me visse”). Outras nem tanto, como a namoradinha do professor que sai com ele e so fala dela mesma, o professor que chega em casa ve a mulher hipnotizada na frente da tv e finge não ver ela la.

    Há aqueles que querem algum ombro amigo ( a pedagoga que estoura com a aluna; a suicida, a prostituta...) e aqueles que não querem criar laços algum (o protagonista, a diretora...) O próprio protagonista declara no “modo documentário” do filme que faz esforço para não se ligar aos alunos. É visível que ele tem o dom da didática, mas ele faz questão de ser substituto (ele tem potencial pra ser titular) provavelmente por isso.
    Mesmo assim ele é um homem bom, e acredito que ele se sentia incapaz ao ver que não conseguia ajudar quem precisa ( a aluna suicida, a prostituta), ate pq para fazer isso ele precisaria criar algum vinculo ( ele passa a responsabilidade de prostituta pra o governo; a aluna para a pedagoga (Lucy Liu))

    ... talvez ele perceba no final que laços não seja apenas a maneira que ele tem de ajudar os outros, mas também de se ajudar ( qdo a menina se mata ... algum tempo depois ele vai rever a prostituta naquela casa de amparo ao menor).

    O filme tem muito de Existencialismo: O mundo é um caos em toda parte, e cabe a nós a responsabilidade de de enxergar a saída pra o nossos problemas. Mas todo mundo sempre vai precisar de uma mão alguma hora.

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  8. Ainda não consegui assistir pois só hoje tomei conhecimento do filme e vi alguns trailers, mas já marquei para passá-lo na escola em que trabalho ,por enfrentar problemas parecidos com os retratados. É realmente uma obra feita para repensar na situação não só da educação mas da relação humana.

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    1. Olá,mais você vai assistir antes, se não querida será, mais um desastre na educação.Professor Mota2016

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  9. Olá, achei muito interessante o filme, foi recomendado pela Professora do meu filho de treze anos, como tenho ma pequena experiência na área da Educação(Licenciado em Química-Uneal-Arapiraca-AL), disse vou assistir pra tentar absorver alguma coisa,cara,é um filme que relata as nossas verdades e mentiras, as nossas incoerências e mitos, enfim os nossos pesadelos do dia a dia.Mais ainda falta muito,pois,somente de teoria a gente acaba na mesmice,temos que partir para a prática e que muitas vezes, a gente sabe onde tudo isso vai acabar.Mas, tudo bem, que sou para criticar alguma coisa,sei que temos que juntos fazer muito mais do que assistir a desgraça de milhões de estudantes em todo mundo, com realidade gritante como estas.Para reflexão:" O Brasil vive e sempre viveu uma política Educativa fabricada em escritórios de políticos da pior espécie possível".Professor Mota2016-Mar Vermelho-AL

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  10. Uma lição de vida...uma profissão desafiadora, ser professora.

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  11. Só faltou a reflexão sobre preservar nossas mentes do claustro ideológico presente no status quo.

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    1. Tem um trecho do filme que fala disso. e ele menciona a importancia da leitura para que possamos preservar nossas mentes. É um fato, a leitura nos amplia os horizontes, liga o nosso senso critico na tomada.

      Se só recebemos istorias por imagens, como imaginar? como exercitar esse ato criativo?

      Creio eu ser imprescindível a desenvolver a imaginação através da leitura para desenvolver a habilidade de sonhar.

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  12. Parabéns amigo pelo spoiler do filme...Riquíssimo, acabei de assistir ao filme na casa de um amigo, fui tão impactado que vim saber mais na web e encontrei seu texto, me ajudou a fixar melhor todas as lições aprendidas neste maravilhoso filme.Deus continue lhe dando muita sabedoria e graça na escrita, obrigado por me enriquecer o entendimento.

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    1. Muito obrigado. Fico feliz com suas palavras.

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  13. Achei genial a menção ao conto de edgar allan poe "A queda da casa de Usher" no final do filme. A casa como a alma humana, e a sua queda como a alma desmoronando à depressão e ao caos.

    preciso até reler, gostei demais dessa interpretação.

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