29 de março de 2010

Na noite, esperarei por ti

Neste tempo de Semana Santa, resgato do meu baú um velho poema de esperança. Posso imaginar Jesus Cristo escutando no seu coração palavras parecidas, suficientes para enchê-lo de coragem e poder continuar até o final. Quem sabe, possam ajudar-nos nas nossas noites escuras ...

Quando a escuridão invada teu horizonte
e nada possamos já esperar do dia,
quando a luz bata em retirada
e tudo se torne ameaçador,
não fujas, não temas,
porque na noite, esperarei por ti.

Quando sintas que tudo acaba
e que o esforço é já inútil,
quando somente enxergues sombras
e tua esperança murche
não sofras, não abandones,
na tua noite, esperarei por ti.

Quando os sonos virem pesadelos
e o teu coração se amedronte,
quando o cansaço te derrote
e as forças sucumbam envergonhadas,
não chores, não tremas,
na mais escura noite, esperarei por ti.

20-8-98

24 de março de 2010

Dom Oscar A. Romero, aos 30 anos do seu martírio

Homenagem simples a tão grande Pastor, Profeta e Mártir. Ofereço algumas páginas com reflexões, notícias, etc. sobre estes 30 anos do martírio de São Romero de América:


11 de março de 2010

Na sociedade atual, é possível educar nos limites?

No marco da Campanha da Fraternidade Ecumênica, deste ano 2010, com o tema: Economia e vida, fui convidado pelas escolas católicas de Belo Horizonte a dar uma palestra para educadores/as e funcionários/as sobre esta temática.
Com este plano de fundo, ofereço uma reflexão questionadora sobre um tema polêmico: a educação nos limites. Nesta sociedade de consumo e bem-estar, que tem como modelo de pessoa o ser-consumidor, com um sistema econômico totalmente focado na exploração da capacidade ilimitada que o ser humano tem de desejar, nesta cultura da riqueza e o prazer... Será possível educar nos limites? Quem pode educar no controle dos próprios limites, se todos nós somos consumidores compulsivos? Existe alguma alternativa? ...

3 de março de 2010

Além do oceano... Na velha Europa...

Uma viagem pelas contradições da realidade espanhola.
Responsabilidades na missão escolápia levaram-nos, nos últimos dias de fevereiro, por uma rápida viagem pela minha terra, o País Basco. Não vou fazer uma crônica da viagem, mas partilhar sentimentos, percepções e impressões surgidas nesta visita...
Clima versus realidade: uma das primeiras coisas que me chama a atenção cada vez que viajo para Europa, concretamente para Espanha, é a enorme importância que a meteorologia tem na vida da sociedade, na mídia e no universo de preocupações e diálogos entre as pessoas. Particularmente gosto muito da meteorologia, não se trata disso. O que me preocupa é quando transformamos os fenômenos climáticos (sejam extraordinários ou não) em tema estrela. Neste momento em que o mundo debate-se com a morte por culpa de fenômenos históricos, por desídia dos que “bem-estão”, por políticas econômicas injustas e cruéis, não é esta uma sutil proposta para fugir da realidade? Por motivos religiosos ou metereológicos, resulta mais cômodo olhar para o céu do que para o rosto de quem sofre. Num mundo que tem séculos em alerta vermelha, numa sociedade cheia de situações dolorosas e trágicas, nos preocupamos com o clima como se nossa vida estivesse em risco, quando o verdadeiro risco é do 80% da nossa humanidade, em situação permanente de sobrevivência. Contraditório, não é?
Crise versus férias: a crise econômica dos países ricos (infelizmente, a maior parte do mundo vive em permanente situação de crise) está afetando fortemente a prosperidade econômica da sociedade espanhola. As políticas e os políticos não levaram a sério os sintomas da crise, e agora, a improvisação não consegue segurar o bem-estar prometido e, ficticiamente, conseguido. Uma economia construída sobre o comércio virtual de hipotecas e créditos, visando somente o lucro máximo e veloz, sem as necessárias raízes da produção para a distribuição, não aguenta uma tempestade. Aumenta o desemprego, cai o nível de consumo (até agora totalmente desmedido), se cortam as ajudas sociais, os créditos enforcam a vida das famílias... mas ninguém renuncia à viagem nas férias. Não conheço os dados, mas seria bom saber quanto gastam as famílias espanholas nas suas férias, em viagens exóticas, em aventuras consumistas e desnecessárias. Com certeza que também este valor diminuiu com a crise, mas com certeza também que não é pequeno. Mais uma contradição?
Espetáculo versus cultura: Europa é um continente com história, com povos milenares, com uma riqueza cultural incalculável. Infelizmente hoje a cultura se transformou em espetáculo triste, deprimente, dantesco, grotesco. O mercado se apropriou da cultura, transformando-a em mercadoria de consumo, sofrendo também ela a lógica da produção comercial atual: bens supérfluos, desnecessários, frágeis, que produzam um prazer imediato e fugaz, que chamem a atenção sem acrescentar nada, que cativem sem enriquecer, que criem dependência do consumo e não do produto. A cultura virou espetáculo, num processo de embrutecimento acelerado, enchendo as horas vagas dos desocupados, dos que, cumprido o expediente, se abandonam ao tédio em espera do final de semana (verdadeiro tempo de salvação da juventude européia moderna). A produção é comercial, não cultural; o objetivo é o lucro, não a cultura; o convite é ao consumismo, não ao deleite. Coitada da cultura dos civilizados!
Existem alternativas? Graças a Deus existem. Nesta rápida visita mergulhamos numa realidade diferente da predominante. Não quero pecar por presunçoso, louvando o que é próprio, mas realmente o fenômeno social e eclesial que está acontecendo ao redor da Escola Pia, principalmente no País Basco e com reflexo em outros lugares do mundo, me enche de esperança. Centenas de jovens e adultos, inconformados com ser como todos/as, vivem experiências grupais e comunitárias nas que se propõe um crescimento integral, nos valores evangélicos (sendo cristãos pelo que vivem, não só pelo que acreditam), experimentando a partilha e a solidariedade com os mais desfavorecidos, procurando um sentido para suas vidas, construindo aos poucos um mundo melhor, uma Igreja mais viva e significativa, comprometida com a construção do Reino. Não é o paraíso nem o modelo perfeito, mas é uma experiência verdadeiramente alternativa, no meio de uma sociedade que não enxerga além de seu nariz e de seu cartão de crédito. É um pequeno mundo novo e diferente acontecendo no coração do velho mundo. Mais uma contradição? Neste caso: abençoada contradição!